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Pediatra: o que acontece com a gripe suína?

photo credit: Lance McCord via photopin cc

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Em 2009, a Influenza A, conhecida como gripe suína, assustou e pôs o mundo em situação de alerta. O anúncio da Organização Mundial de Saúde de casos no México, nos Estados Unidos, na Espanha, no Canadá e em outras regiões, inclusive no Brasil, fez com que muitas medidas de prevenção fossem tomadas para evitar sua contaminação e alastramento. Diversas campanhas foram criadas com o incentivo de lavar as mãos constantemente e utilizar o álcool em gel para melhorar a higienização e a própria vacina que garantiu maior controle da doença.

Quatro anos se passaram e, hoje, pouco se fala da gripe que provocou tanta repercussão nos jornais, na TV, nas Rádios e na mídia em geral. Mas o que aconteceu neste período? O que mudou? Aumentou ou diminuiu o índice de pessoas infectadas pelo vírus?

Um dos temas que serão tratados no Painel, no terceiro dia de congresso, é o Novo Calendário Vacinal do Programa Nacional de Imunização da Sociedade Brasileira de Pediatria. Abaixo, a Dra. Lucia F. Bricks, que será uma das debatedoras do assunto, descreve um panorama atual da Influenza A.

Influenza: aspectos atuais

Lucia F Bricks

Doutora em Medicina pela FMUSP

Diretora de Saúde Pública da Sanofi Pasteur

Divisão Vacinas da Sanofi

Estima-se que, anualmente, ocorram 3 a 5 milhões de casos graves e 250.000 a 500.000 mortes por influenza em todo o mundo. 1 Embora a maioria das mortes por influenza ocorra em idosos e pessoas que apresentam comorbidades, as crianças menores de cinco anos são grupo altamente vulnerável às complicações, sendo frequentemente hospitalizadas 2. Na época de maior sazonalidade da influenza ocorre aumento substancial no número de consultas médicas, uso de antibióticos para tratamento de otites, sinusites e pneumonias, aumento nas taxas de hospitalização por broncoespasmo e pneumonia e, eventualmente, por complicações neurológicas ou cardiacas. A vacinação contra influenza tem demonstrado substancial impacto na redução de casos leves e graves de influenza 3-7 . Estudo realizado no Canadá revelou que a vacinação universal contra gripe foi responsável pela redução no uso de antibióticos tanto nos vacinados como nos não vacinados.

Os vírus circulam durante o ano todo e frequentemente existe co-circulação de mais de uma cepa de influenza (A e/ou B). 2,8 A intensidade das epidemias de gripe varia de ano para ano e está relacionada à virulência das cepas circulantes e à imunidade da população pós-exposição natural ou adquirida por vacinação. 4 O risco de surgirem novas cepas com grande virulência e capacidade de causar epidemias é esperado, mas é impossível prever qual será a nova cepa emergente e quando ocorrerá uma nova pandemia. 9

Após a pandemia de 2009 foi ampliada a vigilância da síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e das mortes causadas por influenza. No Brasil, em 2012, verificou-se aumento no número de hospitalizações e mortes pela influenza A(H1N1)pdm09, que teve baixa circulação no país nos anos de 2010 e 2011. 8

Nos EUA, em janeiro de 2013, foi identificado aumento significativo no número de atendimentos e hospitalizações por influenza A(H3N2)/Victoria/361/2011. Historicamente, as cepas A(H3N2) têm sido associadas a maiores taxas de morbi/mortalidade.9 Essa cepa está incluída nas vacinas de influenza recomendadas para esta temporada de gripe nos hemisférios norte e sul 9,10 e um estudo de efetividade realizado pelo CDC de 03/12/2012 a 02/12/2013 revelou a proteção conferida pela vacina foi de, aproximadamente, 60% (IC95%: 51%-71%) para pessoas com mais de seis meses de idade. Essa estimativa está dentro da faixa esperada nas estações em que a maioria das cepas circulantes apresenta bom pareamento com as cepas vacinais. Além de reduzir a morbidade, a vacinação reduziu em 60% o número de consultas por síndrome gripal.11

Crianças menores de cinco anos desempenham importante papel na transmissão da doença na comunidade e para seus familiares. Em estudo realizado na Mongólia, de 10/2010 a 04/2011, as crianças com idade entre 1 e 4 anos, foram as que tiveram maior taxa de ataque por influenza A(H3N2) (20%) e foram responsáveis pela transmissão do vírus aos familiares, principalmente, lactentes jovens (< 1 ano).12

A preparação para o enfrentamento de futuras epidemias e pandemias de gripe requer planejamento e desenvolvimento de uma cultura de vacinação 1,2. As vacinas contra gripe são muito seguras, sendo raras as contra-indicações. 2,13-16  A vacinação universal de crianças maiores de seis meses, como recomenda o CDC, visa propiciar benefícios diretos aos vacinados e indiretos aos grupos mais vulneráveis, como lactentes menores de 6 meses de idade, que não podem receber a vacina, e idosos e imunocomprometidos, que apresentam menor resposta à vacinação.2,3

A proteção conferida por vacinas depende de diversos fatores, como idade, experiência imunológica prévia, similaridade entre cepas circulantes e coberturas vacinais. 17 A vacinação em larga escala controla mais rapidamente a disseminação de agentes infecciosos. 18,19

Programas de vacinação de escolares reduzem o absenteísmo das crianças vacinadas, de seus contatos não vacinados e até de seus professores. 19-21

Ao contrário dos adultos, que geralmente apresentam comorbidades, a maioria das crianças com complicações da influenza não têm fator de risco. 2,3,6 No Brasil, a partir de 2010, as crianças com idade entre 6 e 24 meses passaram a receber a vacina contra influenza durante as campanhas de vacinação e, a partir de 2013, todos os portadores de doenças crônicas poderão receber a vacina de influenza nas unidades de saúde 22.  Esta determinação do Ministério da Saúde deverá reduzir o impacto da doença e facilitar o acesso à vacina aos grupos de risco, que até 2012 tinham que receber a vacina em centros de referência especiais (CRIES). É importante ressaltar que, apesar deste benefício, muitos indivíduos desconhecem sua condição de risco, principalmente entre crianças e adultos jovens e que muitos profissionais de saúde desconhecem o fato de a asma, a doença crônica mais prevalente na infância, ser um dos principais fatores de risco para complicações da influenza em crianças e adultos. Os benefícios potenciais da vacinação em larga escala estão diretamente relacionados à facilidade de acesso e aceitação das vacinas, que por sua vez, depende da educação de médicos e leigos sobre os riscos da doença e benefícios da vacinação. 23

Para obter os maiores benefícios da imunidade coletiva, é necessário aumentar as coberturas vacinais. 24 .Ainda existem controvérsias sobre proteção cruzada conferida contra cepas emergentes e sobre a duração da proteção das vacinas. Estudos recentes confirmaram que a segurança e proteção conferida pelas vacinas contra a influenza A(H1N1)pdm09 foram semelhantes à observada contra cepas sazonais, mas ao mesmo tempo, ficou claro que a duração da proteção é limitada e que há necessidade de revacinação anual, mesmo quando as cepas circulantes foram incluídas nas vacinas utilizadas na temporada anterior.25,26

 

Referências

1 WHO. Media Centre. Influenza (seasonal). Fact sheet nº 211, april 2009.

Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs211/en/index.html&gt;.

Acesso em: 9 ago. 2012. 2 CDC. Disponível em: <http://www.cdc.gov&gt;. Acesso em: 09 jun. 2009. 3 CDC. Fluview. Disponível em: <http://www.cdc.gov/flu/weekly/&gt;. Acesso em: 27 jan. 2013. 4 Poehling KA et al. Pediatrics. 2013 Jan 6. 5 Dawood FS et al. J Pediatr. 2010;157(5):808-14. 6 Moore DL et a. Pediatrics. 2006 Sep;118(3):e610-9.

7 Kwong JC, et al. CID. 2009;49:750-6.  8 Ministério da Saúde. Influenza (gripe) – semana epidemiológica (SE) 52 (atualizado até 8/01/2013). Recebido em: 28 jan. 2013. 9 Bresee J, et al. N Engl J Med. 2013 Jan 23. 10 WHO. Disponível em:<http://www.who.int/&gt;. Acesso em: 21 nov. 2012. 11 CDC. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2013;62:32-5. 12 Nukiwa-Souma N et al. PLoS One. 2012;7(3):e33046. 13 CDC. MMWR Morb Mortal Wkly Rep.2011;60(33):1128-32. 14 AAP Committee on Infectious Diseases. Pediatrics. 2011;128(4):813-25. 15 Mullins RJ, et al. Med J Aust. 2011;195(1):52-3. 16 Black S, et al. Lancet. 2009;374(9707):2115-22. 17 Kim TH, et al. Scand J Infect Dis. 2011;43(9):683-9. 18 Pitman RJ, et al. Vaccine. 2012;30(6):1208-24. 19  Hull HF et al. J Sch Nurs. 2011;27:34-42.20 Monto AS et al  J Infect Dis. 1970;122(1):16-25. 21 Graitcer SB et al. Vaccine. 2012;30:4835-41 22  Ministério da Saúde. Influenza. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/&gt;. Acesso em: 1 nov. 2012. 23 Johnson DR, et al. Am J Med. 2008;121(7 Suppl 2):S28-35. 24Plans-Rubió P. The vaccination coverage required to establish herd immunity against influenza viruses. Prev Med. 2012 Jul;55(1):72-7.25  Bateman AC et al. Infect Dis. 2013 Jan 22.  26Yin JK et al. Vaccine. 2012 2;30(21):3209-22.

 


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