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Pediatria e Inclusão: o que uma coisa tem a ver com a outra?

Temos vivido, nos últimos 30 anos, uma grande mudança na abordagem da problemática das diversas deficiências. Até meados dos anos 70, era comum que pessoas com deficiência ficassem confinadas em suas casas, saindo, na grande maioria das vezes, apenas para visitas médicas, reuniões familiares íntimas e para frequentar escolas especializadas.

Um movimento iniciado na década de 60, coincidindo com a Desinstitucionalização Manicomial, deu início a um novo momento em que as deficiências passaram, gradativamente, a serem encaradas não como obstáculos e sim como desafios de desenvolvimento.  Dentro desse novo contexto, a sociedade como um todo vem sendo desafiada a se reestruturar, de modo que, as pessoas com algum tipo de deficiência possam desempenhar suas atividades de maneira plena dentro, como todos os seres humanos, de suas amplas capacidades.

Dessa forma observa-se uma grande mudança na abordagem médica, tanto da criança quanto do adulto com deficiência. Os obstáculos a serem enfrentados para o desenvolvimento de cada pessoa passaram a ser encarados como da sociedade. Pouco a pouco, o modelo médico de reabilitação foi sendo substituído por um modelo ecológico, onde todo o entorno que interage com a pessoa é responsável pelo seu desenvolvimento. Dessa forma o pediatra também se viu no meio dessa revolução e passou a ser solicitado a interagir de maneira muito mais ativa junto aos locais frequentados pelos seus pacientes. Escolas, clubes, associações, etc., passaram a solicitar informações junto aos médicos e, assim, esses se viram obrigados a sair de consultórios e interagir com um elenco antes, praticamente, ignorado.

photo credit: Ana Pinta via photopin cc

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Em 1992, a Associação Americana de Deficiência Intelectual e de Desenvolvimento – AAIDD (sigla em inglês para American Association on Intellectual and Developmental  Disabilities), até então chamada AAMR (American Association on Mental Retardation), lançou um manual, Sistema 1992, propondo uma nova abordagem diagnóstica da Deficiência Intelectual (DI) (na época denominada Deficiência Mental). Por ela, a avaliação quantitativa, mensurada pelo quociente de inteligência (QI), era apenas mais um dado no intrincado quebra cabeças da avalição da DI, não mais o dado soberano. Por essa avaliação explicitou-se o que já vinha sendo discutido há alguns anos: que os prejuízos intelectuais no desempenho de uma pessoa com DI não eram absolutos e conviviam com habilidades que deveriam ser exploradas e trabalhadas.

Nessa época, houve a grande explosão do movimento inclusivo. Inúmeros profissionais ligados às áreas de educação e saúde passaram a repensar o papel da escola e da sociedade como um todo, para que se pudesse oferecer o máximo de possibilidades ao pleno desenvolvimento de cada pessoa, independente do tipo de deficiência apresentado. Não apenas os profissionais envolvidos diretamente no acompanhamento terapêutico, mas todas as pessoas que se relacionam com esses cidadãos e suas famílias passam a ter total relevância em suas vidas. Assim sendo, o pediatra se viu envolvido em algo que há anos já se esboçava, mas que ainda não havia se apresentado de maneira tão explícita. Se antes a atenção à saúde e ao desenvolvimento neuropsicomotor eram suas prioridades, agora ele passa a ser solicitado a dar sua opinião também no desenvolvimento escolar, social e interacional.

Como todas as grandes mudanças de paradigmas, o trabalho a ser desenvolvido é extremamente árduo. Primeiro porque é comum que pessoas que estão acostumadas a lidar e trabalhar com um determinado esquema sejam resistentes a efetuar mudanças – isso exige desprendimento e intenção – segundo porque o desconhecimento geral da sociedade gera um antagonismo natural a essas mudanças – “está bom do jeito que está, por que mudar?!”.

Cabe, dessa maneira, aos profissionais de saúde e, em especial, ao pediatra acreditar na absoluta capacidade de superação de cada ser humano, desde que sejam oferecidas condições para isso. O que há pouco mais de 20 anos parecia impossível, como plasticidade neuronal, hoje é fato. Inúmeros cientistas trabalham no sentido de identificar maneiras de melhorar os fenômenos da neuroplasticidade, de modo a permitir a superação de traumas e injúrias. Também a resiliência, entendida como a capacidade de sair fortalecido de situações adversas, traz novas possibilidades de abordagens individualizadas e assim, mais uma vez, desmistifica-se a ideia de que todas as crianças devam responder igualmente frente aos mesmos estímulos sociais, pedagógicos ou, até mesmo, físicos. A inclusão não pressupõe a igualdade entre os indivíduos, mas sim o respeito e a atenção às idiossincrasias, susceptibilidades e diferenças de cada um, para que a abordagem ocorra num contexto de grupo, mas com especial atenção às necessidades de cada um.

 José Moacir de Lacerda Junior

Bacharel em medicina e residência de pediatria pela Faculdade de medicina do ABC; Especialização em Homeopatia pela Associação Paulista de Homeopatia (APH); Professor do curso de pós-graduação em educação inclusiva do Instituto Superior de Educação Vera Cruz (ISE Vera Cruz); Colaborador médico do Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil Interdisciplinar (NANI)/CPN (Centro Paulista de Neuropsicologia), vinculado à UNIFESP

Este tema será debatido mais profundamente no dia 18 de Março do congresso, no painel: Inclusão na Escola: Barreiras e perspectivas, das 8h às 9h30.

Não percam!

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